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De areia

Luis Fernando Verissimo

O homem estava caminhando na praia e passou por um garoto que fazia uma construção de areia. Parou para olhar. Lembrou-se do seu tempo de garoto, quando também gostava de fazer aquilo. Lembrou-se do seu orgulho quando terminava a construção, dando os retoques finais com areia molhada. Não importava que a construção fosse destruída logo em seguida, ou que a maré a destruísse a noite. Podia fazer outra. E se orgulhar de novo ao terminar seu castelo de areia.

- Bonito, o seu castelo de areia - disse o homem para o garoto.

O garoto olhou para o homem. Depois falou:

- Não é castelo.

- O que é então?

- Um condomínio fechado.

Mais tarde, no grupo que se reunia para um papo à beira-mar, todos mais ou menos da mesma idade, o homem contou que o que lhe parecera serem as torres do muro do castelo na verdade eram guaritas para os guardas do condomínio, segundo o garoto.

- Veja você. Um condomínio fechado... Que fim levaram os castelos de areia?

- A realidade do garoto é essa. No outro dia minha neta quis saber por que a Cinderela não deu o número do celular dela pro príncipe.

- O curioso é o pulo, de castelo para condomínio fechado. Do feudalismo para a paranoia contemporânea, sem etapas intermediárias.

- Quinhentos anos de arquitetura ignorados.

- Mas os castelos feudais não deixavam de ser condomínios fechados.

- E os condomínios fechados não deixam de ser fortalezas medievais.

- O garoto, na verdade, é um gênio da síntese.

- Pensando bem, por que nós só fazíamos castelos de areia na idade dele? Podíamos fazer outras coisas.

- Eu comecei a fazer mulher nua bem cedo.

- Podíamos fazer coisas do nosso tempo, como o garoto. Arquitetura moderna. Mas fazíamos castelos feudais. Nós é que ignoramos a história. Éramos medievais renitentes. Desprezamos a revolução burguesa, a industrialização e todas as mudanças sociais e urbanísticas que vieram depois dos castelos feudais, só pelo prazer de ornamentar aqueles torreões com rosquinhas de areia molhada.

- Não, não era só isso. Os castelos não eram apenas castelos. Evocavam muita coisa. Cavaleiros entrando e saindo. Arqueiros defendendo as muralhas durante os sítios. Atacantes sendo repelidos com óleo fervendo. E tudo o que acontecia lá dentro, na nossa imaginação. Os banquetes, os romances, os duelos, as intrigas. Nada parecido acontece dentro de um condomínio fechado de hoje.

- Sei não. No que eu moro acontece cada coisa...

No dia seguinte o homem avistou o garoto no mesmo lugar da praia. Viu com satisfação que ele dava os retoques finais na sua obra, fazendo escorrer areia molhada da mão nos pontos mais altos da sua construção. Talvez ele tivesse decidido fazer um castelo, afinal. Castelos eram irresistíveis, seu fascínio atravessava o tempo e as gerações. O homem perguntou se o que o garoto estava fazendo eram ornamentos para os torreões do castelo.

- Não - disse o garoto.

- O que é então?

- Antenas parabólicas.

O homem seguiu seu caminho, suspirando.


Domingo, 5 de fevereiro de 2006.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.